Num recanto árido do sul de Angola, onde o vento parece sussurrar histórias antigas, ergue-se um monte granítico carregado de significado: Tchitundo-Hulo. Este sítio arqueológico não é apenas um conjunto de pedras com desenhos antigos. É um documento cultural vivo, um testemunho silencioso de povos que habitaram estas terras muito antes das fronteiras modernas existirem.
O Que é Tchitundo-Hulo
Tchitundo-Hulo é um complexo de estações de arte rupestre — com designações como Mulume, Mucai, Pedra das Zebras e Pedra da Lagoa — espalhadas por cerca de um quilómetro na região semiárida de Capolopopo, município de Virei, província do Namibe. As formas gravadas ali vão de círculos concêntricos e linhas geométricas a figuras humanas e animais, compondo alguns dos vestígios mais antigos de arte pré-histórica em território angolano.
Os primeiros estudos científicos sobre o local remontam aos anos 1950, quando foi oficialmente registado por investigadores. Desde então, arqueólogos e estudiosos têm reconhecido o seu enorme valor histórico e cultural para a compreensão das antigas ocupações humanas na África Austral.
Pontes Entre Passado e Presente
Não se trata de substituir a visão artística, mas de complementá-la com dados históricos e científicos. Aquilo que antes apresentei como intuição criativa encontra agora eco em estudos arqueológicos que confirmam a importância do sítio como um dos mais relevantes da arte rupestre em Angola.
O próprio nome Tchitundo-Hulo, associado a interpretações como “morro sagrado”, “morro do céu” ou “morro das almas”, revela que este espaço não era apenas físico, mas também espiritual para as comunidades antigas que por ali passaram.
Ao Património Cultural Angolano em Destaque
Tchitundo-Hulo integra o conjunto de bens culturais que o Estado angolano tem vindo a valorizar como parte essencial da identidade nacional. A sua proposta para reconhecimento internacional reforça a necessidade de proteger e estudar este património, não apenas como relíquia do passado, mas como fundamento da memória cultural angolana.
Falar de Tchitundo-Hulo é falar de um tempo anterior às divisões políticas, anterior até a muitos dos povos que hoje compõem Angola. É reconhecer que o território já era espaço de pensamento simbólico, expressão artística e visão espiritual há milhares de anos.
Desafios e Responsabilidade
Apesar da sua importância, o sítio enfrenta ameaças reais. A erosão natural provocada pelo clima desértico, aliada à ausência de proteção adequada e à visitação sem acompanhamento especializado, pode comprometer a preservação das gravuras.
Por isso, valorizar Tchitundo-Hulo também significa defender a educação patrimonial, o respeito pelos sítios históricos e o envolvimento das comunidades locais na sua preservação.
Ao regressar a este tema, reforço que Tchitundo-Hulo não é apenas um objeto de estudo ou contemplação estética. É um símbolo profundo da continuidade cultural em Angola.
Se na minha primeira publicação procurei sentir o mistério das pedras, hoje procuro sublinhar a sua importância histórica e patrimonial. Porque preservar Tchitundo-Hulo não é apenas proteger gravuras antigas — é honrar a memória coletiva, fortalecer a identidade cultural e garantir que as gerações futuras ainda possam olhar para aquelas rochas e perguntar, com o mesmo espanto: quem fomos nós, afinal?


















































